Reencontro no Rio Araranguá: botos e pescadores resgatam uma história viva

Araranguá
Edson Padoin
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A barra do Rio Araranguá vem se tornando palco de um fenômeno que desperta tanto a curiosidade quanto a esperança de ambientalistas e pescadores locais: o retorno dos botos-de-Lahille (Tursiops truncatus gephyreus), também conhecidos como botos-pescadores. Este retorno não é apenas um evento natural, mas também um sinal de renascimento de uma prática do passado, a pesca cooperativa, que une, de maneira harmoniosa, botos e pescadores. A pesca cooperativa entre humanos e cetáceos é um fenômeno pouco comum no mundo, com apenas alguns exemplos conhecidos no Brasil e no sudeste da Ásia, tornando a volta dos botos a Araranguá ainda mais significativa.

Características

O boto-de-Lahille é uma subespécie do golfinho comum e é encontrado exclusivamente em águas rasas da costa atlântica da América do Sul, abrangendo o Brasil, Uruguai e Argentina. Este golfinho de médio porte pode atingir até quatro metros de comprimento e pesar até 400 quilos. Com uma aparência distinta, seu corpo apresenta tons de cinza, mais escuros nas costas e mais claros no ventre, com uma nadadeira dorsal triangular e características marcas naturais que permitem a identificação individual.

O boto-de-Lahille é uma espécie com uma vida longa, podendo chegar até 50 anos, com as fêmeas vivendo mais tempo que os machos. Além de sua habilidade para caçar, os botos são conhecidos por suas interações sociais complexas e, entre seus comportamentos culturais, destaca-se a pesca cooperativa. No entanto, a espécie é considerada ameaçada de extinção, estando na categoria Vulnerável pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). No Brasil, na Argentina e no Uruguai, o boto-de-Lahille é considerado como “Em Perigo”. Isso significa que, se os botos-de-Lahille não forem protegidos, é possível que em um futuro não muito distante, possam deixar de existir.

Uma parceria rara e mutualista

A pesca cooperativa é uma prática única, em que os botos trabalham em conjunto com pescadores artesanais para capturar tainhas. Este tipo de interação ocorre em poucas regiões do mundo, com destaque para estuários do sul do Brasil, como Laguna, Tramandaí (RS) e em Araranguá. Nesse fenômeno, os botos cercam os cardumes de tainhas, conduzindo-os até as margens, onde os pescadores, usando tarrafas, lançam suas redes no momento exato sinalizado pelos golfinhos. Essa colaboração mútua resulta em um aumento na eficiência da pesca, beneficiando ambos os participantes: os botos conseguem capturar mais peixe e os pescadores reduzem o esforço necessário para a captura.

Este comportamento cooperativo exemplifica uma relação harmoniosa entre seres humanos e animais. No Brasil, as interações de pesca cooperativa com botos são limitadas a algumas localidades, e o caso da Barra de Araranguá é particularmente intrigante. Estudos históricos indicam que essa colaboração já ocorreu na região há 30 anos, mas os botos desapareceram temporariamente, deixando os pescadores e pesquisadores com várias perguntas sobre os motivos dessa ausência.

A constatação do retorno dos botos a Araranguá não é um acaso, mas sim o resultado de uma pesquisa científica em andamento, que busca entender os padrões de interação entre botos e pescadores na região. Em 2019, o professor de Ciências Biológicas da Universidade do Extremo Sul Catarinense (Unesc), Rodrigo Machado, iniciou um projeto com o objetivo de investigar se os botos haviam habitado o Rio Araranguá no passado. Com base em relatos de pescadores antigos, que mencionavam interações com os golfinhos, Rodrigo Machado e sua equipe de alunos do curso de ciências biológicas passaram a entrevistar pescadores locais para entender melhor como essa prática ocorria e o papel que os botos desempenhavam na pesca na localidade.

Resurgimento

As entrevistas revelaram histórias fascinantes, com pescadores relatando que até 23 botos participavam ativamente da pesca cooperativa. A partir dessas informações, a pesquisa ganhou um novo rumo: além de estudar a história da interação, os pesquisadores começaram a monitorar o retorno dos botos à região. Em 2021, para surpresa dos cientistas, os primeiros relatos de avistamentos de botos em Araranguá começaram a surgir.

“Ver os animais é reviver uma tradição”

“Quando começamos as entrevistas, nossa grande dúvida era se os botos ainda estavam por aqui. Para nossa surpresa, logo no início de 2021, os pescadores nos relataram avistamentos, e os botos voltaram a interagir com eles, como no passado. Isso foi muito empolgante para nós, pois confirmamos que o fenômeno não havia se perdido. Antigamente os pescadores davam nomes para os botos e eles reconheciam cada um. Até mesmo sabiam como cada animal se comportava.”, afirma o professor.

O pescador de Araranguá, Angelo Gabriel dos Santos, salienta a importância dos animais. “Os botos voltaram a aparecer nos últimos anos, principalmente no verão, e tem sido uma alegria para nós pescadores. Eles ajudam bastante na pesca de tarrafa, porque o boto sabe exatamente onde estão os cardumes de tainha e como cercá-los. Quando ele começa a se aproximar e dá aquele sinal, a gente sabe que é hora de lançar a rede. Essa parceria sempre foi muito importante para a gente, e ver os botos de volta é como reviver uma tradição que estava desaparecendo. Eles ajudam a pegar mais peixe e a pesca fica muito mais eficiente. É uma verdadeira colaboração entre nós e eles.”

Possível patrimônio nacional

Além de monitorar o retorno dos botos, o projeto tem como objetivo garantir que a pesca cooperativa seja reconhecida oficialmente como um patrimônio nacional. Essa proposta ganhou apoio de pesquisadores da área de antropologia da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), que estão colaborando no desenvolvimento de um dossiê para registrar a prática no Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM). O trabalho também está sendo realizado em Laguna e Tramandaí. Esse reconhecimento seria um marco importante para a preservação da cultura local, além de garantir que a pesca cooperativa, uma interação única e rica, seja preservada para as futuras gerações.

“A pesca cooperativa entre botos e pescadores é um fenômeno culturalmente muito importante, que representa uma relação histórica de respeito e harmonia entre o homem e a natureza. Essa parceria merece ser preservada, não apenas pelo seu valor ecológico, mas também pelo seu valor social e cultural. O reconhecimento como patrimônio nacional é um passo crucial para garantir que essa prática continue viva nas próximas gerações. Os pesquisadores da UFSC não trabalham com os botos em si, mas trabalham com os resgates históricos. Essa relação do homem com o boto é muito profunda”, salienta Machado.

Entrevistas

O dossiê está sendo elaborado com base nas entrevistas realizadas com pescadores e em registros de imagens das interações entre botos e pescadores. De acordo com o professor Machado, essa parceria não apenas traz benefícios ecológicos e econômicos para as comunidades pesqueiras, mas também é um símbolo da profunda relação entre o homem e a natureza na região. O reconhecimento oficial como patrimônio seria uma forma de proteger tanto os botos quanto às práticas culturais associadas a eles, assegurando que essa tradição seja mantida e valorizada.

Pesquisa seguirá nos próximos meses

O trabalho de monitoramento da população de botos na barra do Rio Araranguá continua a todo vapor. Em setembro de 2024, um esforço de monitoramento anual foi iniciado, com objetivo de observar o local por um ano, incluindo meses fora da temporada em que os botos estão aparecendo. A ideia é entender melhor os padrões migratórios e a dinâmica dessa interação única entre humanos e animais.

“Os pescadores estão muito animados com o retorno dos botos. Alguns deles já começaram a batizar os golfinhos que têm interagido com eles, como faziam os antigos pescadores. Isso demonstra o quanto essa relação é significativa para a comunidade local. Eles reconhecem os botos individualmente e sabem como cada um se comporta”, detalha o professor.

Colaboração

Além disso, a população local tem demonstrado grande interesse em participar das pesquisas, com muitas pessoas oferecendo relatos espontâneos de avistamentos de botos. Isso tem sido possível graças a um projeto de ciência cidadã, que permite que os moradores da região contribuam para o monitoramento dos animais, fornecendo informações valiosas sobre a presença dos botos.

“Além dos esforços de monitoramento que estamos realizando, temos também um projeto de ciência cidadã, no qual a sociedade desempenha um papel fundamental. Sempre que alguém avista um boto na região, pode nos informar, o que é fantástico e extremamente importante. Não conseguimos estar todos os dias na barra, mas, todos os dias, pelo menos uma pessoa passa por ali e tem a oportunidade de nos enviar um relato. Esse envolvimento da comunidade é muito enriquecedor, pois permite que a sociedade participe ativamente da pesquisa”, completa o professor da Unesc, Rodrigo Machado.

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